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O Xardím do Torel

Junto ao Campo dos Mártires da Pátria, mas escondido de quem passa por aquele planalto de Lisboa, encontra-se o sítio do Torel, debruçado sobre a Avenida da Liberdade. O nome provém de uma família Thorel, talvez de origem holandesa, com uma propriedade no local. Sabe-se que no reinado de D. João V havia em Lisboa um Marco António Thorel , casado com D. Joana Francisca da Cunha Manuel. Viviam na travessa do Convento de N. S. do Monte do Carmo e tiveram vários filhos, entre eles João Caetano Thorel da Cunha Manuel e D. Nicolau Thorel, que foi bispo de Lamego.

Foi provavelmente o primeiro quem construiu o palácio que deu o nome ao sítio. Baptizado na igreja de S. Paulo, casou na paroquial da Encarnação em 1739, e em 1745 já morava junto ao Campo de Santana. Desconhecem-se as razões por que no princípio do séc.º XIX o palácio não era habitado pela família Thorel, pois ali vivia então o desembargador Francisco de Abreu Pereira de Meneses. Após a sua morte, na Gazeta de Lisboa de 27.5.1815 anunciava-se o leilão dos móveis e carruagens.

O palácio pertenceu também à família Sanches de Baena e foi aforado à família Mendonça. O 2.º Marquês de Loulé, Nuno José Severo de Mendonça Rolim de Moura Barreto, casado com a Infanta D. Ana de Jesus Maria, que tendo sido ajudante de campo de D. Miguel na Vilafrancada, passou depois para o partido de D. Pedro e foi feito duque em 1862, já no reinado de D. Luís. Viveu algum tempo no antigo palácio do desembargador Thorel, na época talvez o único edifício que dominava a colina voltada para Valverde, futura Av. da Liberdade. Numa noite de 1875 o edifício ardeu e, sendo o duque figura proeminente, os seus amigos pessoais e políticos acorreram ao Torel onde o encontraram no meio do pátio vendo arder a casa e seus bens com toda a serenidade. Assim se consumiu o palácio do Torel, mas o topónimo ficou até hoje e, durante muito tempo, como Pátio do Torel.

Os terrenos do Torel confinavam com uma propriedade que se estendia pela encosta. Tratava-se de uma quinta com origem no séc.º XVII aformoseada no princípio do séc.º XVIII com um tanque de forma oval e uma varanda com balaústres que ainda hoje se pode ver naquela encosta, assim como alguns painéis de azulejos. Da casa, possivelmente destruída pelo terramoto, não há vestígios, mas sabe-se que foi habitada por personalidades importantes no início do séc.º XVIII.

Voltando à história do pátio do Torel há a referir a compra dos terrenos que tinham sido do Duque de Loulé por Manuel de Castro Guimarães, futuro conde do mesmo nome, que mandou edificar em 1886, com projecto de José Luís Monteiro, um palacete com jardim na encosta, para sua residência. Em 1927, o Conde de Castro Guimarães que já residia em Cascais, vendeu o palacete do Torel ao Estado e instalou-se ali a Polícia de Investigação Criminal depois substituída pela Polícia Judiciária sendo cedido à C.M.L. O jardim da residência, que é hoje conhecido por Jardim do Torel, a troco da construção, pelo Município, de um anexo para a Judiciária.

Outras parcelas foram adquiridas por particulares, que construíram palacetes revivalistas tão ao gosto do final do séc.º XIX. Entre essas personalidades contam-se D. Guilhermina de Andrade Bastos e seu irmão Júlio de Andrade, filhos de um rico negociante de Lisboa. Júlio de Andrade tinha uma excelente posição. Foi director do Banco de Portugal e do Banco Lisboa & Açores, fundou a Sociedade Protectora dos Animais, editou à sua custa opúsculos de propaganda zoófila e adquiriu um carro para socorrer os animais na rua, que depois ofereceu ao Corpo de Bombeiros. Também mandou construir marcos fontanários para pessoas e animais, que ofereceu ao Município de Lisboa, tendo sido inaugurado o primeiro fontanário de ferro em 1882, no Largo do Corpo Santo, podendo ainda ver-se um no ângulo sudoeste do Rossio.

Júlio de Andrade era irmão do pintor e arquitecto Alfredo de Andrade, que estudou e residiu quase toda a sua vida em Itália onde teve uma brilhante carreira como superintendente no restauro e conservação de monumentos antigos. Quando veio a Lisboa, apresentou alguns projectos para a avenida marginal entre o Arsenal e o Terreiro do Paço e para um arranjo do Passeio Público, que não foram aceites. Quando se urbanizou o Torel, já Alfredo de Andrade estaria desiludido com Portugal, pois não foi o autor dos projectos para as residências dos seus irmãos, mas é possível que tivesse alguma influência no tipo de arquitectura escolhido.

Foi Sebastião Locati o autor dos riscos dos palacetes com os n.º 3 e 7 da Rua Júlio de Andrade e, quanto ao palacete com o n.º 5, é da autoria de César Janz, com alterações de Norte Júnior (1937). Neste funciona o CENJOR, Escola e Formação de Jornalistas. No n.º 7, residiu o filho de Alfredo de Andrade, Dr. Rui de Andrade, que foi grande proprietário no Ribatejo e senhor da herdade de Fontalva, em Barcarena, onde o seu pai construiu um castelo revivalista. Nesse palacete funciona o Serviço Nacional de Bombeiros, enquanto no n.º 3, antiga residência de D. Guilhermina Bastos está, desde 1988, a Xuventude de Galiza, prestigiosa associação cultural dos galegos residentes em Lisboa.

No seu conjunto, o Torel constitui um caso único no urbanismo alfacinha e tem sido comparado a uma “riviera” no coração da cidade. Mas, se entrarmos no “sítio” pela Travessa do Torel depara-se-nos, à direita, a face lateral do antigo palácio Silva Amado, construção da 2.ª metade do séc.º XVIII, onde estão instalados alguns serviços do Ministério da Educação e, à esquerda um edifício antigo que é o que resta do antigo Convento de Sant’Ana.

Mais adiante a Travessa do Forno e a Travessa da Cruz apresentam ainda construções muito anteriores às que vemos na Júlio de Andrade. No n.º 4 da Travessa da Cruz, em 1854, o escritor Wenceslau de Morais, que viveu muitos anos no Japão, onde faleceu, e que o Rotary Clube de Lisboa homenageou colocando ali uma lápide em azulejos.

Se Torel deu nome ao sítio, também uma personalidade é lembrada na Calçada do Lavra. Esta teve primeiro o nome de Damião de Aguiar, desembargador e chanceler do reino, que teve palácio ao fundo da calçada e que, na qualidade de vereador da Câmara assinou o auto de entrega da cidade em 1580 a Filipe II. Uma sua filha ligou-se por casamento à Casa de Pavolide para o qual passou a propriedade. No séc.º XVIII um descendente de Manuel Lopes de Lavre, tesoureiro da rainha D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, viveu ali e foi conhecido por Lavra. Com este nome foi alterada a designação da calçada.

Nesta íngrime artéria que liga o Largo da Anunciada ao Torel, começou a funcionar o primeiro elevador de Lisboa, obra de Raul Mesnier, inaugurado em 1884, funcionando no início por um sistema de cremalheira por contrapeso de água e depois a tracção eléctrica. O velho elevador do Lavra é ainda o veículo que nos nossos dias vence a calçada e nos leva ao agradável “sítio” do Torel e ao seu jardim-miradouro.

In, SANTANA, Francisco, dir., Dicionário da História de Lisboa, Carlos Quintas e Associados, 1994.