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Noticias 2013


Teixeira de Pascoaes e Rosalía de Castro

Diário do Minho | 15 Mayo 2013

O "Dia das Letras Galegas", que se celebra depois de amanhã, dia 17 de maio, vai homenagear, este ano, o dramaturgo Roberto Vidal Bolaño. Todavia, esta efeméride tem como "figura tutelar" (permanente) a poetisa Rosalía de Castro. Um dos maiores admiradores da "Mãe das Letras Galegas" foi o poeta amarantino Teixeira de Pascoaes. Por isso, trazemos hoje à colação alguns dos aspetos da "relação afetiva" de Pascoaes com a personalidade e a obra de Rosalía.

Foi sobretudo entre os anos dez e trinta do século passado que o poeta Teixeira de Pascoaes estreitou as suas relações com a Galiza e com a obra de Rosalía de Castro – a "mãe" da moderna literatura galega e, segundo Orlando Ribeiro (em opinião expressa no jornal "Diário de Notícias"), "uma das mais puras e elevadas vozes poéticas de todos os tempos".

Os laços com a Galiza estabeleceu-os o poeta amarantino de vários modos. Destacamos três: através da correspondência com alguns dos mais notáveis intelectuais galegos da altura; através da publicação em revistas e jornais galegos de vários poemas e textos em prosa da sua autoria; e através da sua atividade, enquanto sócio efetivo do Instituto Histórico do Minho (criado em 1916 e extinto em 1939), sediado em Viana do Castelo.

Da correspondência trocada com intelectuais e artistas galegos já falámos em anterior artigo, o mesmo acontecendo com a publicação (bastante assídua) de textos seus nos periódicos e revistas da Galiza. É agora oportuno fazer algumas referências sobre a importância do Instituto Histórico do Minho na "relação" entre Pascoaes e a cultura literária galega – bem como sobre a estreita cooperação entre aquele Instituto e o jornal "A Aurora do Lima", e sobre a importância desta entidade na divulgação, em Portugal, da obra poética de Rosalía de Castro (que viria a provocar, em Teixeira de Pascoaes, uma admiração sem limites pela poetisa galega).

Durante cerca de uma dezena de anos (1920-1930), o bissemanário vianense "A Aurora do Lima" deu voz constante a escritores galegos e portugueses que, assiduamente, colaboraram nas suas páginas acerca de temas e problemas comuns às duas margens do rio Minho. Além da publicação regular desses textos, o mesmo jornal de Viana do Castelo dedicou duas dezenas de números especiais dedicados à Galiza.

Esses números especiais foram publicados em janeiro e julho de cada ano (de 1920 a 1930) e neles colaboraram vários poetas e intelectuais galegos, tais como NoriegaYarda, Alvaro de Las Casas e IglesiaAlvariño. Do lado português, destaca-se a colaboração nessas páginas de Teixeira de Pascoaes, onde escreve vários artigos sobre a Galiza e sobre a sua "devoção" a Rosalía de Castro e à sua obra poética.

Um aspeto que reputamos de relevante nesta "devoção" pascoaesiana por Rosalía terá sido o contacto direto e pessoal do poeta de Amarante com alguns intelectuais galegos durante a célebre "Velada Literária", realizada em 15 de julho de 1923, em Viana do Castelo, sob o patrocínio do já mencionado Instituto Histórico do Minho, em estreita colaboração com o jornal "A Aurora do Lima". Este evento destinou-se a prestar uma grande homenagem a Rosalía de Castro. Foi um acontecimento de relevante significado cultural, pois nele participaram não só intelectuais e artistas com nome já bem firmado na Galiza e em Portugal, como também diversas personalidades políticas (incluindo ministros dos governos luso e espanhol). Aliás, como curiosidade, diga-se que, de acordo com as notícias divulgadas à época pelos periódicos "Jornal de Notícias" (de 17 de julho de 1923) e "A Aurora do Lima" (editado no dia 27 de julho desse mesmo ano), só o funeral do poeta Guerra Junqueiro, falecido no dia 7 desse mês (e sepultado com honras de Estado no Panteão Nacional), terá impedido que o presidente da República Portuguesa e o presidente do Governo estivessem presentes nessa homenagem a Rosalía, sendo por isso substituídos/representados pelo Governador Civil de Viana do Castelo.

A "Velada Literária" de homenagem a Rosalía de Castro, para além de noticiada "a posteriori" nos jornais atrás referidos, mereceu especial divulgação prévia no bissemanário "A Aurora do Lima", que, na sua edição de 13 de julho de 1923, dedicou um número especial àquele evento cultural. Assinale-se, a propósito, que para além do artista plástico José do Egipto ter pintado o retrato de Rosalía para ser apresentado na "Velada", o poeta galego Ramón Fernández Mato compôs um belo poema sobre aquela iniciativa cultural, poema esse que ele próprio leu na sessão do Instituto Histórico do Minho realizada em 29 de agosto daquele ano, nele agradecendo a Portugal uma tão bela homenagem à poetisa galega (cf. notícia deste facto em "A Aurora do Lima", de 12 de outubro de 1923).

Que não se estranhe a circunstância de Fernãndez Mato marcar presença na reunião dos membros do Instituto Histórico do Minho. É que dele faziam parte 94 elementos, 36 dos quais eram Membros Correspondentes galegos (o jornal "A Aurora do Lima", nas suas edições de 5 de julho de 1927 e 12 de junho de 1928, aborda a criação daquele Instituto e indica os nomes dos seus associados). Ora, na importante "Velada Literária" a que nos temos vindo a referir, Teixeira de Pascoaes não só esteve presente, como interveio naquela sessão solene de homenagem à autora de "Cantares Gallegos", ali demonstrando a sua "devoção" por Rosalía e pela sua obra literária.

Na altura em que se realizou este evento em Viana do Castelo, já a obra da "Rola da Galícia" (como chama a Rosalía o professor José Cervaens y Rodríguez) – ou a "Cotovia do Sar" (no dizer do professor António Rodrigues Baptista), ou ainda "a excelsa Rosalía" (nas palavras da professora Pilar Vásquez) –, era por demais conhecida do poeta Teixeira de Pascoaes. Todavia, é justo salientar que se Pascoaes escreveu bastante sobre as gentes, as terras e a cultura galegas, não existem na sua obra poética muitas produções centradas em Rosalía de Castro.

Certo é que o grande poeta lusitano já em maio de 1912, numa conferência promovida pelo movimento da "Renascença Portuguesa", realizada no Porto e subordinada ao tema "O Espírito Lusitano ou o Saudosismo", afirma que "a Galiza é um bocado de Portugal (?) sob as patas do leão de Castela". A este respeito, assinale-se que o professor António Rodrigues Baptista frisa que "Teixeira de Pascoaes nunca ou quase nunca trata a Galiza como entidade distinta de Portugal".

Todavia, sem desconhecer a literatura galega, parece-nos que Pascoaes só se terá "dedicado" à cultura da Galiza, e particularmente à sua produção literária – com realce para a de Rosalía Castro –, a partir de meados da segunda década do século passado (até aí, a sua atenção terá estado essencialmente voltada para a literatura catalã, como o prova a sua presença física em Barcelona em junho de 1918, onde participou numa série de conferências no Instituto de Estudos Catalães, que viriam a ser editadas em volume, no Porto, em 1919). Parece-nos que a "dedicação" de Pascoaes à literatura galega sofre um claro impulso na mente do poeta a partir desse mesmo ano (1919), quando publica a obra "Os Poetas Lusíadas". Demonstra-o o facto de Teixeira de Pascoaes ter dedicado este livro "À memória de Rosalía de Castro e a JoanMaragall", e de, no "corpus" desta mesma obra, salientar: "O Portugal de Camões, a Galiza de Rosalía, a Catalunha de Maragall, são os Reinos Saudade, como a fidalga Castela é o Reino de D. Quixote". Rosalía começa a surgir, a partir de "Os Poetas Lusíadas", com maior frequência nos escritos de Pascoaes, tanto mais que com ela partilhava um "sentimento" que era comum, e muito querido, de ambos: a Saudade.

A propósito deste "sentimento", diga-se, em abono da verdade, que já em 1914, no vol. XVII da "Revista Lusitana", surge um estudo da autoria de Cláudio Basto, de Viana do Castelo, precisamente sobre a Saudade. E nesse estudo, afirma o autor que "em galego não há só a forma 'soedade'; há várias que representam os falares do povo" – sinalizando, outros vocábulos, 'soidade', 'soidá', 'soledad', 'soledade' e 'soledá", que Cláudio Basto frisa ter recolhido da obra "Folhas Novas", de Rosalía! Vem a talhe de foice mencionar que também a profesora Carolina Michaëlis de Vasconcelos, em 1914, num ensaio intitulado "A Saudade Portuguesa", afirma que Rosalía de Castro utilizou ainda, nos seus "deliciosos Cantares Gallegos", o vocábulo 'suidades" – assim como pertinente se torna referir que Rosalía usa também, pelo menos duas vezes, a palavra 'Saudades', nos poemas que dedicou a Emílio Álvarez e Castro e a R. Robert. É crível que aqueles dois trabalhos (de Cláudio Bastos e de Carolina Michaëlis de Vasconcelos) tenham sido do conhecimento de Pascoaes, sendo certo que a palavra "Saudade", enquanto suporte dos seus ideais relativos ao "Saudosismo", era já nessa altura um vocábulo refencial na sua poesia. Tal facto é, aliás, notório na conferência que Teixeira de Pascoaes realizou em Barcelona, em 1918. Diz ele: "A saudade é portuguesa, como é galega e catalã. A saudade é de Frei Agostinho da Cruz, como é de Rosalía de Castro e de Juan Maragall. As brumas do Atlântico e as sombras dos Pirenéus penetram na alma luso-galaico-catalã com a sua misteriosa melancolia; e são místico arrobo em Frei Agostinho, queixa divina em Rosalía de Castro, religioso sobressalto em Maragall" (cf. "Saudade y Quijotismo", La Vanguardia, Barcelona, 13-7-1920).

Como se deduz daqui, é certo que já antes de 1920 o poeta amarantino se deixara notoriamente "enfeitiçar" pela Musa Galega. Prova-o ainda a "Dedicatória" à 2.ª edição de "Marânus", que Pascoaes reeditou nesse mesmo ano – dedicatória esta que ganharia outra forma na que atribuiu à 3.ª edição, editada em 1930, no poema intitulado "Oferta" (a 1.ª edição de "Marânus", editada em 1911, não levara dedicatória alguma). É verdade que são parcos em número os poemas que Pascoaes dedicou a (ou mencionou) Rosalía de Castro. Os que publicou, porém, são de elevadíssima qualidade poética, aparecendo a poetisa galega como símbolo da "Ternura" divinizada – sendo ainda poemas bem reveladores da autêntica "devoção" que Teixeira de Pascoaes dedicava a Rosalía e à sua obra.

Miguel de Mello (Maio de 2013)